terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Nem tão belo quanto o de fadas

Não foi a primeira, nem a segunda, não foi tampouco a terceira ou a quarta de quem eu tinha conhecimento. 
Ele me falou alumas vezes dela.. "É boa moça"; "trabalhadora"; "trabalha a noite na central"; "nunca tira a camisa para transar". 
"A gente leva tudo isso.. tudo pode mudar. Muda pelo amor."
Ela veio do Nordeste, sei lá de onde. Veio fugindo de sei lá o que. Deixou dois filhos para trás. 
Eles se conheceram num pátio onde se alugam kitnetes. 
Se via sempre um a tira colo do outro, os dois trocando de mãos um cigarro de maconha e os sonhos foram ficando pequenos demais para caber num kitnete. 
Chorou para um, chorou para outro.. passou a perna na própria mãe. Conseguiu de uma tacada só um lugar para morar e trazer a filha mais nova da mulher. 
Mas também começou a enganar.. o que era combinado passou a ser descumprido. 
Os cigarros eram divididos, mas ele escondia as capsulas e não deixava nenhum vestígio de pó. O que os olhos não vêem o coração não sente, não é mesmo? 
Ela não poderia saber e nunca saberia se isso não o mudasse. Sempre o mudava. E a todos.
Discussões, ciúmes... brigas e mais brigas enquanto, despretensiosamente, conquistavam uma nova vitória; trouxeram do Nordeste o filho mais velho, o que faltava. A filha já tão apegada, família completa, ele queria que o menino o chamasse de pai. 

Mas a cocaína não. 

E em um acesso de raiva quebrou a casa toda, espancou as crianças, abriu o rosto da mulher com um soco e jogou todos na rua a própria sorte. 

Vence a mentira;
Vence mais uma vez o ódio. 
Não foi a primeira, tampouco será a última. 
Ele fez uma escolha. 
Só quem o atura é a droga e ela fará de tudo para ser a única para ele.

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