quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Relicário de Melancolia (ou "As palavras incontidas")

"Abre os olhos e tenta lembrar-se que dia era, a garota tem 12 anos e estuda de manhã numa escola de freiras, sentada na ponta do sofá-cama observa  a mochila, nunca arrumada de véspera, esperando o material do dia. E que dia era? Jogou o estojo e umas poucas folhas dentro e rumou para escola. O período termina 11:30h e a escola é perto de casa.
Ela nunca volta para casa na hora, prefere ficar por lá, ignorando fome e solidão.. ainda que tenha a consciência de que ninguém pode fugir para sempre.
Volta pra casa as 14h, bate no vidro da porta. Bate mais uma vez. Senta na soleira, o sol esturrica a pele do rosto e na garganta, um grito querendo voar.
A chave gira do lado de dentro. A porta se abre e ela ainda está sentada. Levanta-se, a avó já deu as costas, ela vai para o quarto quieta, coagida pelo silêncio da casa. Liga o computador, indócil mas não senta-se frente a ele.
Olha a estante, pega um livro, lê duas páginas, enjoa.
Joga pinball, enjoa.
Abre outro livro, enjoa de novo.
Deita no sofá e olha o teto.
As horas passam.
As pás do ventilador de teto giram.
Pergunta-se mentalmente se tem cabimento em um lugar assim alguém falar de amor.
O silêncio a cansa. Já não espera respostas.
Volta para o computador e escuta qualquer música. O tédio a impede de escolher outra e mais um silêncio vem.
Quanto tempo passa assim até ao longe escuta o barulho do portão do quintal?
Suspira fundo.
Escuta a avó andar para a sala enquanto o avô entra em casa.
Então, finalmente, a garota recebe o seu "boa tarde" e o interesse por sua vida escolar: gritos. Questionamentos de onde esteve, reclamações, as injustas acusações sobre envolvimento com drogas. Continua deitada. Escuta o avô xingar em outra língua.  Chora em silêncio.  Levanta e vai até o banheiro, no armário do espelho, pega um frasco lacrado de dipirona sódica e leva consigo para o quarto.  Toma-o inteiro, num gesto transbordante de candura  e volta a deitar-se.
A avó entra no quarto. Reclama da lâmpada acesa, do computador, da música,  da bagunça, do desânimo.  A visão da garota embaralha enquanto o discurso sobre o desânimo prossegue. Gotas quentes de lágrimas escorrem pela lateral do rosto.
Uma palavra soprada de leve dança nos lábios da garota.
"...Morrer".
E ela adormece.
Dorme até o fim do dia.
Dorme e se estende pela noite.
Dorme até ser abruptamente acordada no dia seguinte para a escola, para mais um dia similar... Onde tentará voltar cada vez mais tarde e que, em desespero, precisará dopar-se cada vez mais.

3 comentários:

  1. Respostas
    1. Dizem que dois anos depois ela morreu e colocaram uma puta no lugar.
      Tipo a história da Miley Cyrus.

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