Ela nunca volta para casa na hora, prefere ficar por lá, ignorando fome e solidão.. ainda que tenha a consciência de que ninguém pode fugir para sempre.
Volta pra casa as 14h, bate no vidro da porta. Bate mais uma vez. Senta na soleira, o sol esturrica a pele do rosto e na garganta, um grito querendo voar.
A chave gira do lado de dentro. A porta se abre e ela ainda está sentada. Levanta-se, a avó já deu as costas, ela vai para o quarto quieta, coagida pelo silêncio da casa. Liga o computador, indócil mas não senta-se frente a ele.
Olha a estante, pega um livro, lê duas páginas, enjoa.
Joga pinball, enjoa.
Abre outro livro, enjoa de novo.
Deita no sofá e olha o teto.
As horas passam.
As pás do ventilador de teto giram.
Pergunta-se mentalmente se tem cabimento em um lugar assim alguém falar de amor.
O silêncio a cansa. Já não espera respostas.
Volta para o computador e escuta qualquer música. O tédio a impede de escolher outra e mais um silêncio vem.
Quanto tempo passa assim até ao longe escuta o barulho do portão do quintal?
Suspira fundo.
Escuta a avó andar para a sala enquanto o avô entra em casa.
Então, finalmente, a garota recebe o seu "boa tarde" e o interesse por sua vida escolar: gritos. Questionamentos de onde esteve, reclamações, as injustas acusações sobre envolvimento com drogas. Continua deitada. Escuta o avô xingar em outra língua. Chora em silêncio. Levanta e vai até o banheiro, no armário do espelho, pega um frasco lacrado de dipirona sódica e leva consigo para o quarto. Toma-o inteiro, num gesto transbordante de candura e volta a deitar-se.
A avó entra no quarto. Reclama da lâmpada acesa, do computador, da música, da bagunça, do desânimo. A visão da garota embaralha enquanto o discurso sobre o desânimo prossegue. Gotas quentes de lágrimas escorrem pela lateral do rosto.
Uma palavra soprada de leve dança nos lábios da garota.
"...Morrer".
E ela adormece.
Dorme até o fim do dia.
Dorme e se estende pela noite.
Dorme até ser abruptamente acordada no dia seguinte para a escola, para mais um dia similar... Onde tentará voltar cada vez mais tarde e que, em desespero, precisará dopar-se cada vez mais.
E o que acontece à menina?
ResponderExcluirDizem que dois anos depois ela morreu e colocaram uma puta no lugar.
ExcluirTipo a história da Miley Cyrus.
Olha! Alguém me ama!
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