sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Era dia dezoito
Eram 18:30. Havia aquele senhor que era pele e osso. Seus olhos, o esquerdo uma manta branca e o direito chegando a mesma situação. O seu caminho cruzava com o daquela moça, em linhas opostas. Ao que ela passou por ele, ele a interrompeu.
- Moça, moça - disse estendendo a esquelética mão enquanto a outra segurava uma fina pasta de documentos. - eu estou aqui, desde cedo no hospital, só com o meu café no estômago. Será que você não poderia me ajudar?
- Eu acompanho o senhor à padaria...
- Não filha, é longe.. vou lanchar perto do ponto final do meu ônibus, não quero te atrapalhar no seu caminho.
A moça hesitou, pareceu estranhar. E estranhou, desconfiada que era.
- É que não sei se tenho dinheiro trocado, senhor.
- Mas não precisa ser muito, filha...
A moça parecia pensar em algo, ainda que desconfiada.
- Acho que tenho algo aqui... o senhor acha que isso dá?
Abriu o bolso menor de sua bolsa e vasculhou por algo, encontrou uma nota de cinco reais e pegou-a. Entregou ao senhor. Ele pegou aquela nota delicadamente e, encarando a moça nos olhos, fez brotar um sorriso entre as murchas e magras maças da face.
- Ahh, minha filha... isso não dá para um lanche não.. isso dá para eu jantar logo mais ali..que é quatro e cinquenta.. Muito obrigado. Que o Senhor te multiplique isso muito. Ninguém me dava nada.. Obrigado por me escutar, filha. Que Deus ilumine muito a sua vida, o seu caminho. São Sebastião te guie e te proteja.
A fisionomia da moça mudou completamente
- Senhor.. eu posso te pedir uma coisa? Eu posso te dar um beijo?
- Claro filha.. - e parou, com a face esquelética próximo dela. Ela pousou a mão no lado da face oposta e beijou demoradamente a que lhe estava próxima. Sua outra mão, pousou em suas costas, o tato lhe conferindo a sensação de cada uma das costelas daquele velho.
- Que Deus te guarde muito e te seja fiel sempre, filha...
- A nós dois, senhor...
O velhinho se foi, devagarinho, apoiando a mão no corrimão.
A moça olhou um pouco, não demorou virou e seguiu o lado oposto. O coração apertado, o cenho franzido, o olho marejado, nariz ardido.
Eu não estou lhes contando uma história.
Eu sei que isso aconteceu.
Aconteceu no dia de hoje.
O velhinho eu não sei quem ele era,
Mas a moça que lhes digo, era eu.
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Senti as palavras. Sinto falta de te ler mais.
ResponderExcluirOrgulho de ser amiga dessa moça.
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